Um percurso…

O que faz falta aos professores nas escolas dos dias de hoje?

Fui professora durante 17 anos. Tive a sorte de me ter apaixonado pela minha profissão desde o primeiro dia e de nunca ter sentido qualquer instabilidade. Não tenho dúvidas de que isso sempre se deveu ao meu trabalho. Primeiro, porque terminei o curso e a profissionalização com uma boa nota; depois, porque, por onde passava, deixava saudades.

Ensinei sobretudo a ler e a escrever. Não as primeiras letras, mas aquela leitura e escrita que, entre os 12 e os 15 anos, nos devem sobretudo ajudar a pensar, a sentir e a comunicar. E tenho sido muito feliz a fazê-lo, confesso.

Ao longo deste tempo, fui também professora de Expressão Dramática, Formadora de Informática no Ens. Profissional e Formadora de Docentes. Fui fazendo inúmeros workshops e apresentando diversas comunicações, principalmente desde que me especializei numa área que não apenas contribuiu imenso para o meu desenvolvimento profissional, como me fez ter ainda maior gosto pela profissão e, também, me trouxe muitas e boas amizades.

Nos últimos anos, comecei a sentir, sobretudo naqueles momentos que dedicava às reuniões de trabalho, que horas e horas eram consumidas sem que nada de verdadeiramente importante, inovador e enriquecedor da prática educativa fosse produzido. Queria poder sentar-me durante duas horas com um colega e discutir o que fizemos, trocar estratégias e materiais, construir, fazer diferente e melhor. As reuniões eram feitas mas eu, na maior parte do tempo, ou ficava calada, ou falava e sentia-me algo incompreendida, ou desenvolvia uma forma de seleccionar o que era fundamental, esquecer o resto e, com o portátil ligado, avançar “nas minhas coisas”.

Paralelamente ao trabalho na escola, ia desenvolvendo um outro trabalho que era meu e que, por vezes, me levava ao encontro de deliciosas trocas e trabalho de equipa a distância: com colegas de outras escolas do país ou mesmo do Brasil. No fundo, começou a construir-se à minha volta uma segunda sala de professores, virtual, onde eu me sentia/sinto perfeitamente à vontade e onde falo muito mais, partilho muito mais e, sem dúvida produzo mais… em equipa.

Até que… penso que um pouco no contexto dessa “outra sala de professores”, do conhecimento que algumas pessoas foram tendo de mim e sobretudo do meu trabalho, do acumular de projectos, trabalhos, criações, comunicações (http://profteresa.net/cv), de uma enorme vontade de partilha que nunca me fez ter medo de dizer “eu faço assim e tu? que posso aprender contigo?”… surgiu a oportunidade serenamente aguardada: o convite para integrar a equipa do ME cujas funções mais directamente se relacionam com a minha especialização. Aliás, este foi até o primeiro dos dois convites recebidos. Mas… com a RBE colaborarei de outras formas, também muito agradáveis.

Assim… escrevo este post não apenas para falar do que sinto que faz falta nas escolas portuguesas (desculpem a longa introdução) mas para registar o início das minhas funções na ERTE. É que… só passaram ainda 3 dias e já pude saborear o que significa verdadeiro trabalho de equipa: o ser acolhida maravilhosamente, o saber perguntar “do que precisas? em que posso ajudar-te“, o esclarecer, mostrar, o escutar, dar e retribuir… trocar ideias, trabalhar para um produto comum, criar…

Agradeço a todos os que tão bem me acolheram e espero sinceramente estar à altura das vossas expectativas.

E regressando àquilo que faz falta nas nossas escolas… pois… é precisamente isto… ter desejo de…. condições para… saber… trabalhar em equipa.

Não estar dependente de uma reunião obrigatória, marcada no calendário com meses de antecedência, para discutir um assunto, preparar uma actividade, preocupar-se com as 2 horas que a reunião vai demorar. Passar quase uma hora dessa reunião a ler informações que, no fundo, no fundo, em nada vão contribuir para uma mudança na forma de ensinar ou – mais importante – para uma melhoria das aprendizagens. Ler e aprovar actas, mais preocupado com aquilo que se disse do que com o que de facto se fez.

É preciso ter mais tempo para pensar, reflectir, trabalhar e sobretudo partilhar. É preciso sobretudo compreender que num email que se troca, numa página que se visita, num link que se partilha no Facebook em vez de… (não, não vou ser mázinha…) o professor está a formar-se, está a aprender!

É preciso descobrir que não há longe, nem distância, que se pode trabalhar muito bem, colaborar, apenas usando um ficheiro no Google Docs, por exemplo. É preciso perceber que não é preciso estar sempre a inventar a roda; que não é preciso preparar mais um material sobre este ou aquele conteúdo quando o colega do lado fez um tão bom que pode reutilizar-se. E se ele não fez, na internet se poderá encontrar algo que possamos adaptar.

E é precisamente por isso que é tão importante partilhar e trabalhar em equipa. Às vezes, só às vezes, consigo trabalhar assim na escola. Agora… sinto que poderei fazê-lo melhor e… sobretudo… aprender…. aprender…muito!

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18 thoughts on “O que faz falta aos professores nas escolas dos dias de hoje?

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  2. Cornélia Castro

    Gostei, mais especificamente de “É preciso ter mais tempo para pensar, reflectir, trabalhar e sobretudo partilhar. É preciso sobretudo compreender que num email que se troca, numa página que se visita, num link que se partilha no Facebook em vez de… (não, não vou ser mázinha…) o professor está a formar-se, está a aprender!”.
    Precisamos que nas escolas, mais professores compreendam, sintam isto! Precisamos de nos despir de pre-conceitos. Os inovadores (e trabalhadores) que tenham a possibilidade e as oportunidades de se juntarem e partilharem os seus saberes. Que esse entusiasmo continue e não esmoreça… nunca! Para contagiar outros… :)E que tenhas tempo, muito tempo!

  3. Fernando Rebelo

    Como eu te compreendo… sem a ingénua sensação (inútil e adolescente) do crónico “incompreendido”, mas já sem grande energia para fomentar mudanças que impliquem conflitos quixotescos(pelo menos com adultos cristalizados) desejo-te, a ti que ainda a tens, boa sorte.

    Bjs
    Fernando

  4. IC

    Realço, sublinho, ponho em letras maiores as expressões “partilhar”, “trabalhar em equipa” e… “ter desejo de…”.
    Eu sei que há pouco tempo nas escolas para partilhar e trabalhar em equipa, mas se houvesse o desejo disso acabavam-se as reuniões preenchidas com informações afixando estas, e reivindicava-se a inclusão no horário não lectivo de permanência na escola de horas semanais (ao menos uma) para reuniões de trabalho dos professores com a mesma disciplina e anos. Não que eu defenda a compartimentação das disciplinas, mas já era alguma coisa positiva.

  5. IC

    P.S.
    A blogosfera é poderosa, mas não são precisos os dedos todos de uma mão para contar os blogues de professores que falam de aulas e de práticas, que partilham experiências e saberes :(

  6. Isabel Preto

    Parabéns, Teresa. Que tudo te corra bem, nesse novo Percurso.
    Concordo contigo! Nada de novo se aprende na maioria das reuniões, que somos obrigadas a suportar, onde se fala de tudo e sobretudo de nada, onde se ouvem lamúrias daqueles que, por vezes me pergunto, estarão na profissão certa!
    adoro estar com os meus alunos, quero aprender mais sobre como os ajudar a crescer e a construir saberes.
    Beijos grandes.

  7. Teresa Pombo Post author

    Obrigada a tod@s pelos comentários!
    Fernando, que bom ver-te aqui! E tão simbólico :) afinal, tu foste o “chefe” de uma das poucas equipas de escola (Coord. de BE) em que trabalhei e que funcionou. Que saudades…
    A equipa da BE da escola agora também funciona mas precisamente porque está lá o desejo e muito empenho dos seus membros, cada um tem as suas funções definidas… Um abraço!

  8. José Carlos Figueiredo

    Como eu compreendo esse sentimento de horas perdidas, em reuniões muitas vezes praticamente inúteis.
    Foram muitas as vezes que me sentia quase sozinho a “inventar” novos materiais, mas actualmente a partilha, colaboração e cooperação que felizmente tenho encontrado nos últimos tempos via, Mpel, FB, twitter, … permitiram em muito ajudar esta minha/nossa caminhada :)
    Devo em parte esta nova lufada de ar fresco, a um amigo muito especial, que nos é comum, o Paulo Simões.

    Agora Teresa, apenas te posso desejar muitas felicidades nesta nova e estimulante etapa e continuar a seguir as tuas partilhas 😀

    Bjs
    José Carlos Figueiredo

  9. José Romão

    Olá Teresa,
    Fico muito contente por saber que estás a trabalhar na ERTE.
    Em relação ao tópico do teu artigo…o que é (era?) preciso é que os que trabalham nas escolas, tenham (tivessem?) esse teu espírito que te leva a questionar, perguntar, procurar, partilhar…
    Coloquei duas hipóteses de tempo verbal, mas escolhi a real e não a hipotética, pois ainda acredito nos professores.
    Keep on with the good work!

  10. Jose Alberto Rodrigues

    Um post sublime, sem duvida…
    O que falta?
    Sem duvida que tranquilidade e assertividade.
    … E um pouco de adequação aos novos tempos. Aflige-me pensar em professores que pensam que acabado o curso, há 1, 5, 10, 20 ou 30 anos, aprenderam tudo e nada mais cabe dentro das suas mentes.
    Bem dito Teresa, “não há longe nem distancia”.
    Parabéns pelo novo passo na tua carreira.

  11. Fernanda

    O texto que eu gostava de ter escrito, mas ainda bem que foste tu, porque escreves muito melhor. Consegues transmitir sentimentos em cada palavra.
    Bjinhos

  12. antónio alves

    Teresa:
    Fiquei bastante contente ao saber das tuas novas funções. Parabéns!
    E MUITOS parabéns, também, pelo texto, tão bem escrito, e pelas tuas ideias, sempre tão acertadas!
    Quanto ao que faz falta nas escolas: vontade, tempo e dedicação, para, em conjunto, encontrar soluções inovadoras para os problemas que enfrentamos. Vejo muitas pessoas cansadas e desanimadas com o rumo das “coisas” da educação, mas essa não pode ser a solução. O teu percurso e as tuas palavras são um exemplo a seguir. Obrigada por partilhares connosco coisas tão boas! E MUITAS felicidades para esta nova etapa da tua vida!

  13. José Paulo Santos

    Antes de mais, tenho de pedir desculpas por não ter ainda respondido a este belíssimo texto que retrata, com exactidão, a tua personalidade e a tua capacidade profissional. Esta postura perante o Ensino conheço-a bem e congratulo-me por por desenvolver projectos contigo.
    Quero felicitar-te publicamente pelo teu trabalho ser reconhecido, através da equipa ERTE.
    Estar afastada da sala de aula dar-te-á uma nova perspectiva sobre a Educação, claramente. Aprende-se a relativizar, a ponderar, a planear, a discutir em profundidade.
    Enfim, apenas para te dizer que a equipa ERTE ficou a ganhar com a tua presença e a tua capacidade de trabalho e de inovação.
    Bem-hajas

  14. Teresa Pombo

    Agradeço todos os comentário e o incentivo!

    @Zé Paulo, as tuas palavras deixam-me muito feliz por vários motivos mas talvez em especial por seres o promotor do espaço onde tenho crescido tanto: a Interactic 2.0 (está o badge aqui ao lado!!)
    De tudo o que disseste sobre a perspectiva nova que irei adquirir, acho que preciso de acrescentar que tenho a sorte de poder ainda estar na sala de aula mas de uma forma diferente da dos outros anos. Mas, uma vez mais, é-me apresentado um desafio: vou poder dedicar-me ao apoio de aluno com necessidades e à dinamização de Projectos de Leitura. É claro que as TIC estarão presentes. Começaremos assim: http://profteresa.net/projectosdeleitura/

    Espero que este olhar duplo, esta rica experiência me ensine muito!

  15. Josete

    Tereza,
    Incrível como temos vivência quase que idênticas! Eu também fui por 17 anos professora de Educação Física e compartilho das suas idéias… Certamente precisamos de mais tempo para partilhar e refletir sobre nossos percursos. Às vezes me sinto sozinha, mas ao ler seu depoimento fique muito feliz e esperançosa com a possibilidade de ao menos conseguir divulgar essas lindas experiências!
    Bjs,
    Josete

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